sexta-feira, 29 de abril de 2011

Um copo d'água.

Entre todos os nossos entretantos.

Eu lembro de uma noite qualquer. Qualquer daquelas na sua casa. Na NOSSA casa. Meu lápis rabiscava o papel buscando a perfeição daquela que era perfeita pra mim. ''Mãe, posso dormir na casa da Ana?''. Uma, duas, três horas. O tempo passava e meus olhos não se atreviam a fechar. Era preciso viver! Viver até desmaiar de sono à visão de mesas girando ao leo: loucos! Por estarmos juntos.

Parte de mim é a menina dos olhos. Parte dos amigos; do conhecimento; da vivência. Um ser de pequeno tamanho e de tamanha grandeza que ocupa um espaço imenso sem sair do lugar: um abraço de braços fortes.

De Rocha à água. Mas sem sair do papel de pedra: cada algo no seu devido lugar. E o tempo formou-se mulher e a mulher formou-se no longe. Mas quem disse que o longe existe (não é?)?

Me joguei pra fora do barco e enquanto afundava alguém me puxou. E me abraçou ''como ninguém mais nesse mundo''. Respirou comigo e deixou que eu chorasse; que espantasse meus medos. Só respirou.

São quatro casas, dois amigos.

''A Ana vem! Eu sei.''

É uma casa, um ser.


Mau




sábado, 16 de abril de 2011

Um soluço

Entre todos os nossos entretantos.

Eu tinha então 13 anos. Você, 10 e nada a ver com isso.
O acampamento fora esdrúxulo, a volta, torta. O dia seguinte se resumia àquele segundo de ansiedade que não passa, àquela esperança que não sabe vencer o choro. O hospital que não aceitou os meus treze anos não sabe o que fez com o significado dos quatorze, dos dezesseis, dos dezoito.
Eu vi as pessoas chegarem de longe pra correr às janelas e afogar os olhos no céu, sem entender. Preces e telefonemas, decisões e vôos, malas e silêncio.
A gente fazia máscaras de oxigênio com os abraços mais próximos: era a urgência de ar.

Mas depois das horas de estrada, da chuva que já não me lembro se caiu no céu ou só nas minhas bochechas... Depois do relógio me sussurrar as duas e meia da manhã e dos ponteiros fincarem meu peito... Quando as rosas se fizeram cheiro e atacaram as minhas narinas e os meus pulmões e eu não entendi... (alguém explicou que aquilo era cheiro de morte em qualquer hora que fosse) Quando eu não pude comer por aquela mesma boca arrasada que não dissera adeus e o mundo se tornou pequeno no meu soluço, e o ar e o sono perderam-se de mim! Aí você teve que ver com isso. Eu te fiz ter que ver, ter que vir, porque agora a máscara provisória não me salvaria mais.

A gente era tão novo.
"Mãe, o Maurício vem? Por favor, pede pra alguém me trazer o Maurício"
Era o meu primeiro encontro com a morte.
E não houve pai nem mãe, nem primo nem avó, nem anjo ou deus nenhum que me acalmasse. Não houve palavra de consolo, família reunida ou pétala de rosa que me fizesse respirar de novo
enquanto não chegou o seu abraço. Um abraço de dez anos de idade. 10 anos que já sabiam o que era não ter avô mas, muito mais que isso, que sabiam me abraçar como ninguém mais nesse mundo.

"Mãe, por favor, pede pra alguém me trazer o Maurício"
Vida que segue, você cresceu, as coisas mudam
Mas quando a saudade me estremece ou falta você nas suas palavras
é esse episódio que pula do peito.

"o Maurício vem?Por favor..."

Entre todos os nossos entretantos.

Laços

É quando a sua ausência me surpreende pelos corredores que eu mais brinco de faz-de-conta.

Por algum desses mistérios das estrelas, eu finjo que algum dia nós nos conhecemos de verdade. E que essa pirueta que o vento deu justo naquele banco em que você subia...
Ah, Aquela pirueta é um cartão postal vindo da França!

No meu sonho de um segundo não existe burocracia nem preço e as suas sapatilhas voaram lá de longe, bailaram nuvens afora só pra me dizer que as ruas de Paris são do jeitinho que você esperava, são do tamanho que a sua memória de treze anos guardou um dia. São sapatilhas velhas e gastas, como sempre sonharam ser. E vêm voando em livros quase novos, com o gosto vermelho do chocolate amargo que derrete na boca.

Eu pisquei os olhos naquele bar em que você chorava, eu só reabri depois do flash e... passou. De repente, a crise do terceiro ano é minha e eu não tenho ideia de onde você se meteu. Eu não teria como saber e já não faz tanta diferença. No meu sonho, foi num ballet parisiense.

E os dias de céu azul bem brasileiros ficaram, pra eu te abraçar quando quiser

(no sagrado silêncio das almas desconhecidas que se entendem)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Primeiro Momento

A casa é pequena, mas o resto é grande. Às vezes me perco. Aí eu vou indo, sabe? Vou me arriscando.
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'' Não tente ser forte. Se quiser voltar, volte.''
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É uma perna bamba em cima de uma corda, também bamba. Difícil se manter em pé, não acha? Mas eu sou um artista do circo. Sei que sou.
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''Se concentre. Gosto muito de você.''
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Seis e meia da manhã eu abro o guarda-roupa e vocês estão lá. Todos vocês.
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Só se sabe o gosto depois de provar.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Vazou.

''Sexo, dorgas e rock'n roll.'' Nem todos vivem disso, cara. Me desculpe.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Canto Esponjoso

Sinto uma forte dor na barriga. Acho que é de nervoso. Palmas.
''Mais uma! Mais uma!''.
Pensa! Pensa! Outra. Continuo nervoso. A barriga revira.
''OK. Vamos!''
Errei. Droga! Errei. Mas os pés continuam firmes. Já nem sei onde a barriga foi parar.
Rosto vermelho. Sentimentos apreensivos.
Acabou.

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Três da manhã. Confuso. Uma lágrima.

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''Bela
a pasagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.''

Adere.

--

Mau

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Cinzas

E aquele maldito cheiro de cravos espalhados pela madrugada que sufocavam mais que o choro...

"Eu não sabia que ele iria embora. Quer dizer... eu podia ter avisado ou (não, não havia nada que ela pudesse ter dito, na verdade) quem sabe eu..."

e os soluços entre balbucios eram uma tentativa desesperada de reaprender a respirar:

"Quem sabe se... se eu soubesse... teria dado um... um abraço mais forte, um olhar mais insistente. Eu só queria ter tido o tempo de dizer qualquer coisa... qualquer coisa mais interessante do que meias sujas. Você entende? Ele estava ali tão ausente e com os pés tão sujos do desprezo pelo caminho que... eu só consegui falar das meias. Não queria que se perdesse nos passos e agora..."

Pra falar a verdade, não tinha faltado tempo, mas espaço. Ele enchera tanto a cabeça e os ouvidos daquele drama, daquela desvontade de qualquer coisa que palavra nenhuma entraria. Já nem adiantava falar, porque ele insistia tanto em repetir todas as coisas que maldissera a vida inteira que rasgara os tímpanos. Agora só sabia ouvir o que sua tristeza inventasse.

E ela ficou ali, acariciando os pés sujos e descalços do cadáver. Ele tinha um par de meias brancas nas mãos. Mas de que adiantava ter aprendido a lavar as meias?

Justo ele que morrera da falta de vontade de andar...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Times Square

É a tal da ''velha proposta de ano novo''. É válida, eu creio.
Juras pra lá, promessas pra cá... Atos comuns. Eu não os fiz. Só quero que seja diferente. Quem sabe melhor ou até pior, mas diferente. Ás vezes o coração precisa da mudança pra bater melhor; precisa do susto pra ficar atento; precisa da dor pra saber amar. É confuso falar do novo como sendo o velho ou vice-versa.
O mundo se prepara pra vida nova e minha vida se prepara pro mundo novo. A partida está dada. O resto é por nossa conta.

Mau

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Oceano

Minha pele está me escondendo.
Eu tento fugir e não consigo.
Vou cavando, cavando, cavando.
Não acho a saída.

Me solta!
Não quero seguir seu caminho.
Isso não é meu!
Me solta!
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Eu quero uma canção.
Quero a alegria de cantar.
Eu consigo cantar.
Eu sei cantar.

Meu caminho está livre.
Estou indo.
Minha silhueta é pequena.
Estou livre.


Mau

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Eu grito!